4. COMO SÃO VISTOS

Para visualizarmos os conflitos de interesses, fomos atrás de notícias de jornais e outros meios de comunicação que de forma ligeiramente subjetiva, deram ênfase a algumas opiniões tendenciosas sobre a presença de moradores de rua na área central de São Paulo. Abaixo:

“O PLANEJAMENTO FALHO E AS PICUINHAS POLÍTICAS MANTÊM INTACTO O PROCESSO DE DECADÊNCIA DA REGIÃO COM MELHOR INFRAESTRUTURA DA CIDADE. VÁRIOS PROJETOS … SE SUCEDERAM NOS ÚLTIMOS ANOS, MAS, NA PRÁTICA, SÓ REFORMAS QUE PODERIAM SER USADAS COMO BANDEIRAS POLÍTICAS FORAM FEITAS. AS PRAÇAS DA REPÚBLICA, DA SÉ E DA LIBERDADE PASSARAM POR TRANSFORMAÇÕES, MAS CONTINUAM REFÚGIO DE SEM-TETO, O QUE COMPROMETE A SEGURANÇA E O INTERESSE DOS EMPREENDEDORES NA REGIÃO.” O CENTRO ESQUECIDO_ESTADÃO_13/09/2012

Em outras reportagens é evidenciada o isolamento do problema a partir de sua negação.

“A MIGRAÇÃO DE MORADORES DE RUA DO CENTRO PARA A REGIÃO DA AVENIDA PAULISTA TEM FEITO COM QUE EMPRESAS E PRÉDIOS RESIDENCIAIS ADOTEM MEDIDAS PARA EVITAR QUE SUAS MARQUISES E FACHADAS SEJAM OCUPADAS. AO PERCORRER O MAIOR CENTRO FINANCEIRO DA CIDADE, A REPORTAGEM CONSTATOU QUE CONDOMÍNIOS SE ‘BLINDAM’ COM PAREDES DE VIDROS EM SEUS JARDINS. SEGURANÇAS DE BANCOS E GALERIAS PROTEGEM OS CLIENTES DE ABORDAGENS.”

PAULISTA SE BLINDA CONTRA MORADOR DE RUA_ESTADÃO_08/08/2012

Os moradores de rua estão “migrando” do centro para a Paulista. Os interesses para o centro de São Paulo não são compatíveis com a presença dos moradores. Alguém resolve? Parece que convocar a polícia civil é mais fácil. E se alguns vão para a Paulista, que também não é “compatível” com a imagem de moradores de rua, estes propõem quinquilharias nas fachadas que os impedem de dormir perto das mesmas. E ninguém discute o problema.

Reportagem da Folha de São Paulo, 30 de novembro de 2005. Texto de Afra Balazina.
Reportagem da Folha de São Paulo, 30 de novembro de 2005. Texto de Afra Balazina. Fonte: Violação dos Direitos Humanos

E ainda:

“MORADORES E COMERCIANTES DE SANTA CECÍLIA (CENTRO DE SÃO PAULO) TRAÇARAM UMA ESTRATÉGIA PARA EXPULSAR OS MORADORES DE RUA DO BAIRRO: FARÃO UMA OFENSIVA PARA QUE ONGs E RESTAURANTES PAREM DE DOAR COMIDA A PEDINTES.”

“A RESTRIÇÃO DE DOAÇÕES AOS SEM-TETO FOI PLANEJADA EM REUNIÃO DO CONSEG (CONSELHO COMUNITÁRIO DE SEGURANÇA) (…). ENTRE OS PARTICIPANTES DA REUNIÃO ESTAVAM REPRESENTANTES DE MORADORES, COMECIANTES, POLÍCIA, SUBPREFEITURA DA SÉ, GUARDA CIVIL E HOSPITAL SANTA CASA. (…) UMA COMERCIANTE DISSE QUE JOGAVA DESINFETANTE NOS MORADORES DE RUA QUE DORMIAM NA PORTA DE SUA LOJA PELA MANHÃ.”

“DEVERIA HAVER UM LOCAL QUE CONCENTRASSE TODAS AS INSTITUIÇÕES QUE QUEREM DOAR. MAS NÃO NA RUA, SEM HIGIENE.” AFIRMAÇÃO DO PRESIDENTE DO CONSEG, JORGE RODRIGUES

“PARA O REPRESENTANTE DA SANTA CASA, EDILSON FERREIRA DA SILVA, OUTRO PROBLEMA DAS DOAÇÕES É QUE OS SEM-TETO ACABAM JOGANDO RESTOS DE COMIDA E DE ROUPAS NA RUA, O QUE COLABORA PARA ENTUPIR OS BUEIROS DO BAIRRO.”

“ O CONSELHO INICIARÁ SUA ESTRATÉGIA MAPEANDO ONGs, LANCHONETES E RESTAURANTES QUE DOAM COMIDA. O SEGUNDO PASSO SERÁ PROCURAR OS RESPONSÁVEIS DE CADA LUGAR PARA CONVENCÊ-LOS A SUSPENDER A DOAÇÃO. O CONSELHO AVISARÁ, POR FIM, QUE, AO CONSTATAR QUE ALGUM LOCAL CONTINUA ALIMENTANDO OS MORADORES DE RUA, A VIGILÂNCIA SANITÁRIA SERÁ CHAMADA PARA QUE INTERDITE ESTABELECIMENTOS IRREGULARES (…) A VIGILÂNCIA ADIANTA QUE NÃO HÁ PROBLEMA NENHUM EM DOAR COMIDA, DESDE QUE A REFEIÇÃO SEJA SERVIDA COM HIGIENE.”

“ O CONSELHO INICIARÁ SUA ESTRATÉGIA MAPEANDO ONGs, LANCHONETES E RESTAURANTES QUE DOAM COMIDA. O SEGUNDO PASSO SERÁ PROCURAR OS RESPONSÁVEIS DE CADA LUGAR PARA CONVENCÊ-LOS A SUSPENDER A DOAÇÃO. O CONSELHO AVISARÁ, POR FIM, QUE, AO CONSTATAR QUE ALGUM LOCAL CONTINUA ALIMENTANDO OS MORADORES DE RUA, A VIGILÂNCIA SANITÁRIA SERÁ CHAMADA PARA QUE INTERDITE ESTABELECIMENTOS IRREGULARES (…) A VIGILÂNCIA ADIANTA QUE NÃO HÁ PROBLEMA NENHUM EM DOAR COMIDA, DESDE QUE A REFEIÇÃO SEJA SERVIDA COM HIGIENE.”

MORADORES DO CENTRO DE SÃO PAULO  QUEREM PROIBIR  DOAÇÃO DE COMIDA PARA SEM-TETO_FOLHA_01/06/2010

Novamente, a reportagem acima apenas reitera a exclusão social. O morador de rua é tratado como “inconveniência urbana”. E nesse ponto, traçamos o paralelo com a forma como são tratadas as “pragas urbanas”… Se por um lado são propostas “rampas antimendigos”, por outro, o documento de Manejo dos Pombos Urbanos coloca que para impedir o pouso desses em locais indesejados…

Manejo de Pombos Urbanos
Fonte: Manejo de Pombos Urbanos. PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO ,SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE , CENTRO DE CONTROLE DE ZOONOSES

A rampa novamente. E puxando uma comparação com a reportagem sobre o caso no bairro de Santa Cecília:

Destacando um trecho da matéria acima:

“O HÁBITO DE ALIMENTÁ-LOS (os pombos) É COMUM, E É EXATAMENTE AI QUE RESIDE O PROBLEMA. EM SEU ESTADO NATURAL A LUTA DIÁRIA PELA SOBREVIVÊNCIA NA BUSCA DE ALIMENTOS, FAZ COM QUE SE MANTENHA EM NÚMERO REDUZIDO. O EXCESSO DE ALIMENTOS, QUE ENCONTRAM NAS PRAÇAS, PROVOCA UM DESEQUILÍBRIO QUE LEVA A SUA PROLIFERAÇÃO E CONSEQUENTES PROBLEMAS PARA A CIDADE.”

Comparações irônicas a parte, essa é a forma com a qual por vezes se lida com a questão dos moradores de rua.